Primavera do Leste / MT - Quarta-Feira, 21 de Janeiro de 2026

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Relembre: Moradores falam sobre preconceito em Primavera



Matéria feita pela jornalista Stephanie Freitas revela preconceito sofrido e superação de alguns moradores de Primavera do Leste. A matéria foi feita no ano de 2017, a pergunta que fica, nos dias atuais a realidade mudou em Primavera?

Na próxima sexta-feira (20), Dia da Consciência Negra, completa-se 320 anos do fuzilamento e esquartejamento do líder do Quilombo dos Palmares, o Zumbi. No local, no alto da Serra da Barriga, atualmente Alagoas, viviam mais de 30 mil pessoas, negras, índias e brancas, em uma sociedade livre, que foi invadida em 1965 por senhores de engenho, bandeirantes de São Paulo e militares de Pernambuco. De acordo com um artigo publicado pelo escritor Marcelo Barros, o censo mais recente mostra que 44% da população brasileira é afro-descendente, mas apenas 5% das pessoas se declaram negras. Da população brasileira mais empobrecida, 64% são pessoas negras. O Mapa da Violência divulgado no início de novembro deste ano que em Mato Grosso, o número de assassinatos de mulheres brancas caiu 15,2% de 2003 a 2013. Já com relação às mulheres negras, cresceu 15,1% no mesmo período. No Brasil, os dados oficiais mostram que um branco de 25 anos tem, em média, mais do que o dobro de anos de estudo do que um negro da mesma idade. Racismo e injúria racial, de acordo com a legislação brasileira, são punidos com reclusão de um a três anos e multa. Realidade em Primavera Em entrevista com três negros moradores da cidade, o advogado Luiz Carlos Rezende, os vereadores Luis Costa e Estaniel Pascoal, e a professora Janaina Rodrigues Pitas, que desenvolveu um grupo de trabalho com Formação Continuada para professores (Seduc), voltado para as Relações Étnico-raciais nas escolas de Primavera, constata-se que de forma velada ou mais explícita, o preconceito existe.

Atuando em Primavera há 13 anos, o advogado Luiz Carlos Rezende, 51 anos, natural de Nova Londrina/PR, conta que, apesar de não ter sofrido agressões verbais racistas diretas, notou, em algumas ocasiões, um certo preconceito. “Já senti que as pessoas esperavam menos de mim à primeira vista. Quando eu dizia que era professor e advogado, me olhavam de um jeito diferente”, comentou Luiz. Ele recorda que há poucos anos, era comum encontrar em anúncios de emprego o quesito ‘boa aparência’, “o que denota uma forma velada de preconceito” acrescentou. Luiz cita casos em que disse ser negro e recebeu como resposta “Ah, mas você não é negro”, como se fosse algum tipo de elogio. Para ele, a postura com relação ao racismo em Primavera não diverge muito da média nacional. “Mas acredito que essa questão vem melhorando, até porque, os negros não aceitam pacificamente, como por exemplo, o caso recente da atriz Taís Araújo”, salientou. O advogado revela que a princípio era contra as cotas raciais. “Mas com experiências como a que tive, quando participei de um encontro nacional de advogados, em que haviam no máximo 100 negros em um público de 2.500 pessoas, passei a defender. Acredito que, na verdade, deveria haver uma seleção que levasse em conta toda a questão social, já que nem todos os negros precisam desse tipo de vantagem, apesar de a maioria necessitar”, avaliou.

 O vereador a época Estaniel Pascoal se orgulha de ser o primeiro presidente negro da Câmara de Vereadores de Primavera. “Existe preconceito sim, como já sofri, mas vejo que a população vem superando”, comentou o parlamentar de 43 anos, morador de Primavera há oito. Vindo de Cuiabá, ele revela que quando contou à família que iria se mudar para cá, ficaram receosos por já ter ouvido sobre preconceito na cidade, “onde predomina a pele e os olhos claros”, comentou. Em um dos casos em que foi vítima de racismo, Estaniel relembra que ao usar o computador, escutou o comentário: “Nossa, ele sabe usar”. Ele comenta que em situações como estas, prefere ignorar e mostrar indiferença. “Mas falta espaço para os negros na sociedade, por isso sou a favor das cotas raciais. Para mim, a educação supera tudo”, enfaztiou. “ACHAM ELOGIO DIZER ‘PRETO DE ALMA BRANCA’”

 Já o vereador Luis Costa, nascido em uma fazenda na região de Primavera, há 33 anos, em um parto realizado pelo próprio pai, relembra algumas experiências traumáticas de racismo. “Já cheguei a registrar boletins de ocorrências. Sem dúvida, os negros são mais vulneráveis na sociedade, e aqueles que conseguem estudar são os que se destacam. Muitos dos colegas de infância e adolescência do Bairro São José, onde eu morava, estão presos ou morreram no mundo da criminalidade”, contou. Luis, ainda adolescente, trabalhou como entregador do jornal O Diário. “Enquanto muitos estavam se envolvendo com drogas ou crimes, eu busquei outro caminho. Mas mesmo assim, sofri muito preconceito. Em uma ocasião em que cheguei a uma casa para entregar o jornal, um cachorro tentou me atacar e peguei um pedaço de madeira para me defender. Ao sair da casa, o proprietário me ameaçou, dizendo que se eu matasse o animal, ele me mataria, porque o cão valia muito mais que eu. Ao mesmo tempo, tinha pessoas generosas que me esperavam com pão e café todos os dias”, relembrou. Ele cita casos em que, por ser honesto, pessoas achavam que estavam o elogiando, quando o chamavam de “preto da alma branca”. Luis afirma que é a favor das cotas raciais, como forma de amenizar toda a repressão e sofrimento dos negros. “EXISTE UM RACISMO VELADO” A professora Janaina Rodrigues Pitas, 38 anos, moradora de Primavera há oito, revela que, entre os aspectos discutidos e pesquisados em três escolas estaduais do município, em 2014, percebeu que muitos alunos desconheciam o dia 20 de novembro. “Isso mostra uma fragilidade na educação. Acredito que existe um preconceito velado. Uma professora negra daqui de Primavera, que mora no Centro da cidade, já foi confundida como empregada, na própria casa. Quer dizer que uma negra não pode morar numa casa bonita, no centro?”, questionou.

Ela acredita que as pessoas que são contra as cotas raciais não conhecem todo o contexto em que foram aprovadas e a construção histórica dessa política afirmativa. “Avalio diante das minhas pesquisas, apresentações em seminários nacionais e estaduais que essa cidade mascara e silencia o peso da discriminação contra o negro, o indígena, o maranhense, e tantos outros grupos que foram e são responsáveis pela construção da mesma”.

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Janeiro Roxo: Hanseníase ainda é desafio para a saúde pública em Mato Grosso


Com mais de 4 mil casos notificados em Mato Grosso em 2024, a hanseníase continua sendo um grande desafio para a saúde pública no Brasil. Embora a doença tenha sido progressivamente controlada, ainda representa um problema relevante, especialmente em áreas endêmicas como o estado de Mato Grosso. O tratamento, disponibilizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), varia de seis meses a um ano, dependendo da forma e gravidade da enfermidade.

 

A Unidade Básica de Saúde (UBS) é a principal porta de entrada para o diagnóstico e avaliação inicial da hanseníase nos municípios. Nessas unidades, os profissionais de saúde são treinados para identificar os primeiros sinais da doença, como manchas na pele e perda de sensibilidade, que, se não tratados a tempo, podem levar a complicações graves. Quando necessário, os pacientes são encaminhados para Centros de Referência em Hanseníase, que possuem uma estrutura mais especializada, oferecendo tratamento avançado e acompanhamento contínuo para aqueles com formas mais graves ou complicadas da doença.

 

A conscientização sobre a prevenção e o diagnóstico precoce da hanseníase tem ganhado força especialmente durante o Janeiro Roxo, uma campanha nacional idealizada pelo Ministério da Saúde. Essa ação busca sensibilizar a população sobre a importância da detecção precoce da doença, que, se diagnosticada a tempo, pode ser tratada com eficiência, evitando complicações e o estigma social.

 

A Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM) apoia essa iniciativa e destaca o papel fundamental da campanha para despertar a sociedade sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce. A hanseníase é uma doença de notificação compulsória, o que significa que profissionais de saúde devem registrar e comunicar todos os casos diagnosticados, contribuindo para o controle e erradicação da enfermidade.

 

Atenção especializada – Em Mato Grosso, seis municípios mantêm Ambulatórios de Atenção Especializada Regionalizados (AAER), que oferecem tratamento da hanseníase em Alta Floresta, Barra do Garças, Juara, Juína, Tangará da Serra e Várzea Grande. O Hospital Regional de Colíder passou a ofertar atendimento especializado em 2025, ampliando a rede de assistência.

 

Ações nos municípios – Municípios de todo o estado estão desenvolvendo ações em alusão à campanha Janeiro Roxo e reforçando a importância do diagnóstico precoce. As atividades incluem campanhas de esclarecimento, orientações, eventos educativos, entre outras atividades direcionadas à população. Em Várzea Grande, Unidades de Saúde da Família (USF) estão realizando ações de conscientização, avaliação clínica, busca ativa e diagnóstico, facilitando o acesso da população.

 

Aripuanã organiza o Dia D de Combate à Hanseníase, que será realizado no dia 24 de janeiro, em que profissionais de saúde vão orientar a população, identificar sinais suspeitos e encaminhar os casos para acompanhamento e tratamento, quando necessário.

 

Em Sinop as ações incluem atendimentos específicos nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e no Centro de Referência em Combate à Hanseníase e Tuberculose. As iniciativas contemplam, ainda, a qualificação de novos profissionais da saúde que integram a Atenção Primária à Saúde.

Agência de Notícias da AMM


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